Certo dia eu estava a pensar em como a minha história de vida tem se desenrolado.

Fiquei imaginando em como a minha vida estaria se ela, a própria vida, tivesse seguido o roteiro que tracei.

Talvez eu estivesse, até mesmo, tendo a sensação de que ela pouco teria andado.

 

Provavelmente eu estaria morando no mesmo bairro, no mesmo apartamento, convivendo com a mesma vizinhança, acordando todos os dias no mesmo horário, fazendo o mesmo trajeto para chegar ao meu trabalho.

Ao chegar lá eu, certamente, estaria fazendo a mesma coisa que fiz nos últimos anos até dar o horário de ir embora: pra mesma casa, no mesmo bairro, acenando todos os dias pra mesma vizinhança.

 

Uma vida absolutamente previsível, como eu sempre imaginei que teria.

E de fato tive.

Com exceção de algum episódio ou outro que viesse a provocar alguma mudança, eu poderia estar até hoje vivendo confortavelmente no meu mundo comum, sendo uma pessoa comum.

 

Mas a vida, ah a vida, não é como uma estrada em linha reta: quase monótona de tão previsível…

 

“O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” Guimarães Rosa

 

Então eu tive uma epifania, e agora te convido a seguir nessa “viagem” comigo:

Vamos imaginar a vida como uma viagem feita de carro por uma estrada.

O nome dessa viagem será:

De algum lugar para não sei onde…

E os passageiros (eu, você e quem mais quiser embarcar) são:

Não sei quem sou…

Vamos, então, começar a planejar essa viagem (não é isso que fazemos antes de embarcarmos para qualquer destino?): definir a rota, traçar os pontos de parada, preparar a bagagem que vamos levar (alguns carregam só o essencial, outros precisam carregar o mundo), dar uma calibrada nos pneus e checar se está tudo ok com o carro, para finalmente nos sentirmos prontos para partirmos rumo à um destino.

Mas não custa lembrar que o destino sempre é incerto , pois assim é a vida!

Finalmente pegamos a estrada (geralmente escolhemos sempre as mais fáceis de trafegar), vamos apreciando a paisagem e apesar de algumas curvas no trajeto, nosso único esforço é de esterçar o volante para faze las com suavidade.

Mas eis que, de repente, acontece uma pane no carro.

Em geral, nossa primeira reação, nesses casos, é consultar o manual do veículo para que possamos, nós mesmos, resolver o possível problema.

Pois, afinal essa viagem foi planejada com tanto esmero, que ficar no meio do caminho é algo bastante improvável.

Mas daí, você tenta daqui, mexe dali e nada: o carro não esboça nenhuma reação.

Você então começa a ficar tenso, preocupado, cansado.

A solução é chamar um reboque para a oficina mais próxima.

E o socorro pode vir de várias formas:

Você pode ser uma pessoa prevenida, dessas que se prepara pra esse tipo de imprevisto, e basta uma ligação para chamar o guincho do seu seguro.

Mas você pode também não ter pensado em nada disso, ou até mesmo não ter tido tempo para tal providência. Afinal, ao longo da vida estamos ocupados quase o tempo todo com nossas constantes viagens.

Então, só nós resta pedir um auxílio para que alguém nos ajude a empurrar o até a oficina mais próxima.

Essa ajuda pode, até mesmo, vir de um amigo (aquele que está sempre a postos para nos socorrer) que você simplesmente chama, e ele já chega com uma corda pra amarrar no seu carro e puxa lo.

Ao chegar à oficina você começa a ver seu carro ser completamente desmontado.

E você achando que poderia resolver sozinho apenas consultando o manual, hein?

Agora, imagine que depois de desmontar aquele carro quase que por completo, você precisa “se vestir” de mecânico para, então, decidir o que fazer com tudo aquilo que está ali: peça por peça.

Pois afinal, um mecânico nada mais é do que alguém que sabe muito sobre alguma coisa.

E a gente sabe tanto sobre tantas coisas, não é mesmo?

Mais sabemos ainda sobre a nossa própria vida.

Portanto, nada melhor do que nós mesmos assumirmos a frente de montar o nosso carro.

E diante de todas aquelas peças e ferramentas disponíveis à sua frente, você começa a refletir sobre todas as viagens e caminhos que você já percorreu até aquele momento.

Você vai, então, percebendo que muitas daquelas peças estão gastas e enferrujadas, necessitando que sejam substituídas por outras.

Algumas você vai apenas precisar recuperar ou reciclar, pois ainda servem para rodar por mais alguns quilômetros.

Outras você constata que já não fazem mais tanto sentido, e começa a perceber que pode até rodar sem elas, sem que isso faça diferença na mecânica do seu carro.

Pois, dessa vez, ao invés de ter procurado as respostas e orientações em um manual, você simplesmente olhou para dentro de si mesmo e percebeu que tudo que você precisava estava ali: dentro de você:

No que você acredita de verdade? (seus valores e crenças: o que deve permanecer, o que deverá ser descartado ou reciclado?)

O que é essencial pra você levar na sua bagagem? (o que eu preciso verdadeiramente para seguir a viagem? Será que minha bagagem não anda pesando muito?)

O que te fez acordar todos os dias para pegar uma estrada? (mesmo não tendo nenhuma garantia ou sabendo pra onde ela iria te levar)

O que te trouxe até esse ponto da estrada? (porque você decidiu seguir por esse caminho, dentre tantos outros que poderia ter escolhido?)

Ao encontrar essas respostas, você já começa a se sentir seguro para remontar o seu carro.

Depois basta dar uma realinhada, e pronto: você já pode seguir sua viagem e rodar mais alguns bons quilômetros.

Só não se esqueça de ter outros planos, caso seu carro resolva te deixar na mão de novo…

Porque assim é a nossa vida:

Hora somos o motorista: o que planeja a rota, o que guia e conduz o veículo.

Outras vezes somos passageiros: os que apreciam a paisagem, que são conduzidos. Ou apenas o “piloto automático”.

Em outras somos os mecânicos e temos que sujar as mãos de graxa para retificar nossos motores quando estes “resolvem” entrar em pane.

Mas independente do papel que teremos que assumir, vez ou outra, a roda não pode parar de girar.

E o motor da vida pode até ratiar, mas ele só vai morrer se permitirmos que isso aconteça…