Pense numa paulistana, workaholic, estressada, tendo pelo menos duas enxaquecas por semana e vivendo a 700 metros de um dos maiores centros empresariais de São Paulo. Agora imagine essa mesma pessoa, morando a 700 metros da praia, livre de enxaquecas por mais de dois anos, mas ainda assim workaholic… só que a diferença é que agora ela encontrou um propósito, algo que a engrandece e que cria um mundo melhor ao seu redor. Essa sou eu: Natalie Andreoli.

Há sete anos, por questões pessoais decidi sair de São Paulo e arriscar a vida em Florianópolis, junto com o meu namorado. Saímos de uma situação em que ambos eram assalariados, com carreira estável em ascensão, para vivermos apenas com um quarto do valor que estávamos acostumados a receber. Quando eu tomei essa decisão, já sabia que não existia emprego em Florianópolis na área em que eu estava acostumada a trabalhar. Apesar de ouvir muitas pessoas me dizendo que a vida profissional em Florianópolis não era fácil, achei que comigo seria diferente. Afinal, eu não tinha medo de trabalhar, achei que conseguiria arrumar emprego e que não demoraria. Mas não foi bem isso o que aconteceu…

Nos primeiros seis meses resolvi tirar um período “sabático”, fiquei sem trabalhar e só fiquei estudando: fazia aulas de canto, violão e italiano. Além disso cuidava da casa, ia na praia todos os dias, lia vários livros, cozinhava… Ainda não tinha percebido que minha vida tinha mudado, que o meu padrão de vida tinha mudado. Quando me dei conta da real situação, bateu um desespero muito grande e comecei a enviar currículo para dezenas de lugares. Para a minha frustração, fui chamada apenas para uma entrevista e lembro de me dizerem que eu era muito qualificada para a posição, pois possuía mestrado. Eu estava com 30 anos na época, queria mudar de carreira e não entendia como uma empresa poderia recusar uma pessoa que estava disposta a trabalhar, simplesmente pois considerava que ela estava acima dos requisitos exigidos.

Na época lembro de pensar em omitir informações no meu currículo e quando percebi que não iria conseguir emprego na minha área (Biologia), resolvi tentar outras áreas. Eu sabia falar inglês bem, pois trabalhei durante oito anos em uma multinacional americana e então resolvi enviar currículos para escolas de inglês. Logo na primeira semana fui chamada por duas escolas e optei por uma delas. Fiz um treinamento, comecei a dar aulas, mas o salário pago era muito baixo pois como estava iniciando tinha poucas aulas e o valor não cobriria os meus gastos de deslocamento. Foi aí que decidi dar aulas particulares de inglês. Já havia dado aulas particulares de matemática, física, química e biologia para alunos do ensino médio nos primeiros anos da faculdade e sempre gostei de dar aulas. No início tinha poucos alunos e para complementar a renda resolvi fazer pão de mel para vender. Mas era péssima cobradora e estava tendo mais prejuízo e dor de cabeça do que recompensas, então não durou muito. Continuei dando aulas de inglês e foram surgindo oportunidades de fazer traduções de textos técnicos em inglês.

Por muitas vezes me questionei se havia tomado a decisão certa, ao largar tudo em São Paulo e mergulhar no desconhecido. E nessas horas eu lembrava de um dos conselhos mais importantes que recebi na época em que eu estava tomando essa decisão de mudar completamente de vida. O conselho foi dado por uma pessoa do departamento de RH da empresa onde eu trabalhava. Ela me disse: “Anote em um papel os teus motivadores, as razões que estão te fazendo tomar essa decisão, para que no futuro você não se arrependa da decisão que tomou e lembre o que te motivou a tomá-la.” Posso dizer que consultei esse papel inúmeras vezes e ele foi realmente muito importante!

Paralelo à esse turbilhão de pensamentos que passavam pela minha cabeça, lembrei do quanto o yoga me fazia bem e decidi voltar a praticá-lo. A prática do yoga fazia com que eu me sentisse em paz, com que eu me conectasse comigo mesma e entendesse que eu havia escolhido aquele caminho, que eu era responsável pelas ações que havia tomado, mas os resultados das ações não estavam sob meu controle. Até hoje pratico yoga e considero uma excelente ferramenta para o autoconhecimento.

Graças ao autoconhecimento, sempre me questionava se eu estava seguindo o caminho que gostaria e após dois anos dando aulas e trabalhando com traduções decidi que queria voltar a atuar na minha área. Eu sabia que seria difícil retornar estando há tanto tempo fora do mercado e como não queria voltar para a academia para fazer um doutorado, resolvi fazer um curso técnico em meio ambiente. No início as pessoas achavam estranho, uma pessoa com mestrado fazendo um curso técnico, mas a minha ideia era justamente fazer algo de prático e voltar ao mercado de trabalho. Minha ideia deu certo e consegui um estágio em um escritório de consultoria ambiental. Depois fui efetivada e fiquei dois anos trabalhando em uma equipe multidisciplinar. A experiência foi ótima, por poder trabalhar com profissionais de diversas áreas, mas o descaso com o meio ambiente por parte dos empreendedores me deixava frustrada e aos poucos fui me desmotivando.

Paralelamente ao trabalho na consultoria ambiental continuava fazendo a tradução de textos técnicos, relacionados à lixo marinho. Foi quando recebi o convite para ser membro fundadora da Associação Brasileira do Lixo Marinho. Achei que essa era minha missão: ajudar a salvar o planeta! Tudo era muito lindo, fui convidada para coordenar uma campanha internacional contra microplásticos em cosméticos, fazer a tradução dos materiais e reportagens relacionadas. Eu adorava o que fazia, mas a verba destinada a projetos era muito pequena e após um ano e meio nosso contrato não foi renovado. Por amor à causa continuei trabalhando por mais seis meses como voluntária, mas quando vi que não teria como sustentar essa situação, me desliguei oficialmente.

E aí me vi novamente naquela situação: O que vou fazer agora? Essa pergunta sempre me assustava e gerava frustração. Toda vez que eu mudava de atividade/emprego sentia um aperto no coração, uma sensação de fracasso. Pensava na minha vida estável em São Paulo e aquela sensação de arrependimento pairava no ar… Na verdade eu sentia falta do meu salário e não da vida que eu vivia. E demorou muito tempo até eu perceber que eu não precisava mais daquele salário que ganhava em São Paulo, pois eu estava levando uma vida muito mais simples, que não exigia tantos recursos financeiros. Resolvi então voltar a dar aulas de inglês e comecei a revender produtos cosméticos orgânicos e naturais. Uma causa que conheci quando coordenava a campanha contra os microplásticos em cosméticos. Foi graças à esse trabalho que conheci os óleos essenciais, compostos químicos produzidos pelas plantas aromáticas, e comecei a estudar o uso terapêutico deles, voltando assim a ter contato com a biologia.

Ao longo desses anos, o mais engraçado para mim era conversar com as pessoas e elas me enxergarem como corajosa, por eu ter largado tudo, mas dentro de mim eu me sentir uma perdedora. Foi por meio de muito sofrimento e autoconhecimento que eu comecei a mudar essa visão que eu tinha de mim mesma. Isso porque a fórmula padrão de sucesso estava muito arraigada na minha mente: faça uma faculdade, faça uma pós-graduação, arranje um bom emprego, permaneça nele para o resto da vida, obtenha diversas promoções e diversos títulos ao longo dos anos. Quando eu comecei a conversar sobre sucesso com pessoas que moravam na mesma cidade que eu, que levavam uma vida mais simples, em contato com a natureza, eu vi que elas não tinham essa visão de sucesso que eu tinha e comecei a perceber que o meu sucesso poderia ser medido de outra forma, como por exemplo: ter flexibilidade de horários, ter mais saúde e mais vida com qualidade.

Mas ainda assim não me sentia uma empreendedora. Foi através de muita leitura e por causa das redes sociais que conheci o trabalho da Rafa Cappai e tive oportunidade de ler o livro “Criativo e empreendedor, sim senhor” e por causa dele comecei a me dar conta que eu era sim uma empreendedora! E também era criativa! Mas nunca tinha me visto dessa forma! A partir daí comecei a me interessar e estudar mais sobre o assunto. Fiz um curso no Coursera chamado: “O Empreendedorismo e as Competências do Empreendedor” e adorei a definição de empreendedor que eles deram:

“Qual é a nossa concepção de empreendedor? O empreendedor, para o nosso curso, é o indivíduo, ou grupo, que tem pensamento e uma capacidade de realização e de aprendizado diferenciadas. Os empreendedores direcionam e focalizam o seu pensamento, a sua capacidade de realização e o seu aprendizado sempre para tratar as ideias como oportunidades e fazem todos os esforços possíveis e imagináveis para transformarem essas ideias em oportunidades e em novos empreendimentos. O conceito de novo empreendimento, que o curso adota, é bem amplo. Novo empreendimento pode ser: novo produto, novo processo, novo projeto, uma nova organização, uma nova startup, enfim, uma nova empresa”.

Li também o livro “Capitalismo consciente – como libertar o espírito heroico dos negócios” de John Mackey e Raj Sisodia e quando eles falaram de trabalho com propósito meus olhos até brilharam.

“Siga o coração e encontre seu propósito. A vida é curta; a morte é certa: ninguém dura para sempre. Como então devemos viver nossa vida? Para nós, a resposta é clara: temos de nos comprometer a seguir o coração e fazer o que mais amamos e o que torna nossa existência mais significativa.

Para descobrir seus propósitos pessoais mais elevados, tente identificar coisas que realmente importam para você. Quais são suas paixões, seus anseios mais profundos? Se você pudesse fazer qualquer coisa no mundo, o faria? Seu coração sabe as respostas e está sussurrando-as agora me quanto você lê estas palavras. Acalme sua mente, ouça o murmúrio interior e siga o que ele diz. Essa comunicação pode vir na forma de palavras suaves ou talvez como uma espécie de sabedoria intuitiva, mas em qualquer dos casos há uma certeza tranquila quanto a sua verdade. O coração será sempre seu melhor guia na vida, desde que você desenvolva a autoconsciência para ser capaz de escutá-lo e a coragem para segui-lo.

Isso, no entanto, envolve dois aspectos importantes. Em primeiro lugar, é preciso aprimorar o autoconhecimento, que nos permite saber se realmente estamos na trilha ditada pelo coração ou se nos perdemos pelo caminho. Quem segue o coração (e não apenas o ego, como a maioria de nós costuma fazer) aproveita as verdadeiras paixões do viver: faz o que mais ama e preenche a existência com energia, criatividade, alegria e propósito. Sente-se mais vivo, em pleno movimento dentro do fluxo da vida.”

Quando você começa a se envolver nesse mundo do empreendedorismo você vai descobrindo que seus medos não são só seus, que você não é a única a se sentir uma fraude, que é preciso encontrar ânimo e propósito dentro de você, para que você tenha forças para prosseguir nos momentos difíceis. Foi através do Clube dos impulsionadores, liderado pela Paula Quintão que eu percebi o quanto o contato com outros empreendedores é fundamental, pois você partilha as suas dificuldades e também aprende muito com as dificuldades que outras pessoas enfrentaram.

Hoje em dia, depois de ter trabalhado com pesquisa, trabalhado em empresa multinacional, empresa familiar, microempresa, organização não governamental, startup, eu vejo o quanto cada um desses lugares me fez aprender e o quanto essa bagagem é importante para que eu possa viver a minha vida empreendedora. Como diria a Rafa Cappai, sou um canivete suíço, faço de tudo um pouco. Ainda continuo dando aulas de inglês, mas agora faço isso de forma remota, o que me permite viajar o mundo, uma paixão que tenho, ao mesmo tempo que continuo trabalhando. Além disso faço traduções, escrevo para blogs, revendo produtos cosméticos naturais e orgânicos, sou voluntária em um conselho socioambiental na minha cidade e estou começando a dar aulas de Aromaterapia. Hoje em dia quando aquele pensamento de perdedora passa pela minha cabeça, olho tudo aquilo que já fiz e penso o quanto cresci e me autoconheci  em todo esse processo. Se você está sem coragem para empreender, o que eu posso te dizer, baseado na minha experiência é: se conecte com a sua essência, olhe para dentro, tente descobrir o seu propósito dentro de você e não se esqueça de anotar em um papel o que te motiva a tomar essa decisão de mudar de vida. Guarde esse papel com carinho, pois nos momentos em que você sentir dúvida e pensar que não tomou a melhor decisão, ele te ajudará a lembrar o que te motivou a tomar tal decisão. E se você conseguir olhar para dentro e encontrar o seu propósito, por mais tortuoso que possa parecer o caminho que você escolher, ele com certeza valerá a pena.