CORAGEM PARA EMPREENDER. Certamente essa foi uma capacidade que me fez muita falta nessa minha última década de vida. O sonho de empreender sempre esteve presente. A coragem, não. Ela foi brotando lentamente. Precisei chegar à porta dos 30 para, então, colhê-la depois de algum tempo cuidando de uma semente chamada autoconhecimento.

O que você quer ser quando crescer?

Sei que a busca por autoconhecimento é uma trilha longa. Em meu breve caminhar, percebi que nunca tive uma resposta óbvia para aquela velha perguntinha “o que você quer ser quando crescer?”.

Não cresci com o privilégio de saber qual a minha vocação. Sequer tinha facilidade em responder quais eram meus dons. Enquanto via colegas que eram excelentes ilustradores, ótimos cantores, bons atletas ou com talentos claros em quaisquer outras áreas, eu não reconhecia meus próprios talentos.

Alguns assuntos até chamavam a minha atenção. Eu era um leitor ávido. Lia de tudo. Talvez por isso também gostasse de escrever. Tinha também facilidade e fascínio pela História – talvez a área com a qual mais me identificava na escola. Mas não enxergava nada disso como uma forma de poder “ganhar a vida” e ganhar a vida era uma necessidade.

Ao fim do ensino médio, não compartilhava da certeza que alguns colegas já tinham sobre a área em que gostariam de seguir: médicos, veterinários, jogadores de futebol, biólogos… Na ausência de uma escolha, pegava os trabalhos que apareciam. Com 17 anos caí de paraquedas na Contabilidade. Com meu currículo de 4 linhas – dados pessoais, endereço, contato e nome da escola em que estudava – encontrar trabalho em um escritório de contabilidade perto de casa me pareceu uma grande sorte.

E sem saber o que eu queria ser quando crescesse, comecei ali uma carreira que encerro agora, após 12 anos.

Lembranças são sementes.

Arrisco dizer que os primeiros anos na Contabilidade foram sensacionais. Vi ali uma chance de mudar de vida e tive experiências e aprendizados que eu não tenho a capacidade de resumir aqui. Coisas positivas que sem dúvida levarei por toda a vida. Mas os primeiros anos ali também foram suficientes para revelar coisas que eu insisti em não entender: eu não nasci para ser contador. Demorei pra aceitar que esse não era meu propósito. E sem saber qual era, voltei a buscar resposta para aquela velha perguntinha “o que você quer ser quando crescer?”.

Não sei se há uma resposta definitiva para essa pergunta. Mas algumas lembranças me ocorreram.

O fascínio que tinha por ônibus de viagem é uma delas. Me encantava ir à Rodoviária, onde eu ficava observando um festival de cores onde muita gente só via cinza. Prestava atenção na pintura de cada ônibus e quando chegava em casa, pegava as caixas amarelas de Kolynos (dá um google se não é da sua época, rsrs), as cobria com papel branco, colava nelas rodas recortadas em papelão e então fazia as canetinhas hidrocor trabalharem para reproduzir as pinturas do ônibus que eu deixava vivas na memória. Lembro-me que em algum momento na infância desejei ser motorista de um daqueles ônibus quando crescesse.

Também me recordei de quando falava que o melhor trabalho que já tive foram os bicos na banca de revistas de um amigo que não vejo há anos. Nem me recordo se fui pago em todas as vezes que ajudei na banca. Mas lembro que já me sentia pago por poder ficar lendo todo o dia sem precisar comprar as revistas.

Lembrei-me ainda de quando escrevia poesias na escola. Poderia ter se tornado um meio de pagar pela merenda no recreio quando um colega quis pagar para que eu escrevesse para uma garota que ele gostava. Eu disse “poderia” porque o negócio já começou errado. Fiz um belo poema baseado nos olhos azuis da garota. Só que, na verdade, os olhos dela eram verdes e o negócio degringolou na primeira encomenda.

E muitas outras lembranças começaram a vir. Com elas, os sonhos dos quais me privei foram voltando. Por todo o tempo eles estavam ali. Eu só os tinha coberto com a rotina. Cada lembrança veio trazendo um pouco mais de luz sobre o que eu gostaria de fazer na vida. Fui aprendendo a dar espaço a essas memórias, por mais que elas não se encaixassem na profissão que eu estava trilhando. Com espaço elas foram crescendo por si só e se acomodando.

De lembrança em lembrança, foi brotando a semente da coragem para empreender velhos sonhos. A coragem se transformou em projeto, que trouxe possibilidades e exigiu escolhas.

Escolhi empreender e aprendi que essa é uma escolha que vou precisar refazer a cada dia. Espero que não me falte voz pra reforçar o coro daqueles que já perceberam o quanto vale a pena apostar as fichas nos sonhos. E que não falte, aos que buscam, a CORAGEM PARA EMPREENDER.