Quantas vezes você teve a impressão de que uma narrativa o definia? Ou definia por completo seu negócio? Especialmente quando a história dói, tendemos a nos prender a ela como narrativa fixa, estagnada e única. O que proponho hoje é repensar esse conceito.

Como empreendedores, celebramos as maravilhosas histórias de sucesso daqueles que passamos a admirar e enterramos bem fundo nossos fracassos, como se eles vergonhosamente manchassem a história final que queremos contar. Precisamos vencer, precisamos ter uma história de glória para contar, certo? Certo. Claro que é digno desejar (e lutar por) isso, mas suas histórias de dor e dificuldade o definem? Quando ela acontece, a vida para, o relógio trava, o mundo deixa de seguir seu fluxo?

Estudando sobre storytelling pessoal, por diversas vezes (quase todas) eu me deparo com histórias de transformação, superação e expansão. Por diversas vezes igualmente, eu as leio e as coloco lado a lado com a minha história, que passa a parecer um tanto quanto… sem graça. Sem brilho. Totalmente desproporcional com o sucesso que almejo alcançar. Isso porque eu fracassei mais vezes do que já li em algumas dessas histórias e acreditei, por alguns momentos, que esses fracassos limitavam a minha história. E sabe por que pensamos isso? Porque o fracasso, queridos empreendedores, não é compartilhado. Quase nunca. Ou nunca, eu ousaria afirmar. Temos a complexa noção humana de que errar condensa nossa história por completo, cristaliza o fluxo e nos torna fadados a sermos lidos como histórias de fracasso unicamente.

Não quero ser leviana… Ou insensível… Ainda mais porque vivo o poder das histórias pessoais e trabalho para que elas sejam louvadas como grandes riquezas que são. Mas, preciso afirmar hoje de uma vez por todas – uma história é, se não, somente uma história. Somente. Uma. História. Ela não o define por toda a existência, acredite. Repita comigo mais uma vez: uma história é somente uma história. Transcender a isso é transcender a si mesmo e transformar-se de fato em algo mais.

Como seres humanos prontos organicamente para compreender histórias, temos em nosso DNA cadastrado e catalogado que sucesso pode até ter um fracasso ali no meio, mas que o trinfo pleno do final é o que fica, o que vale. Isso porque nunca fui a uma palestra em que alguém me disse “oi, meu nome é fulano e eu vim aqui contar do meu fracasso, pura e simplesmente, sem sucesso no final” ou “olá, vim aqui contar que minha empresa acabou de falir, estou devendo a todos os bancos e não consegui ainda desenvolver um negócio sustentável, mas, estou aí na luta”.

Talvez porque o fracasso seja a sombra de uma boa história? Balela… Temos é bastante medo de ficarmos marcados como “aquele que falhou”. Esse medo é oposto ao conceito de storytelling pessoal como ferramenta de transformação porque, ironicamente, acreditar na vida como múltiplas narrativas pressupõe que podemos lançar mão de estratégias para reescrevê-las. Pois então, se eu posso mudar a perspectiva do que me ocorre, eu posso honrar meus fracassos e sucessos com o mesmo peso e a mesma medida.

Somos seres de histórias infinitas. As que nos ocorrem podem ser contadas e lidas por perspectivas sem fim… As que ainda não nos ocorreram, podem ser criadas sob luzes diversas. Uma história só, sozinha, não faz verão – igual a Andorinha.

Quando eu deixo que uma história dolorosa me limite (limite a narrativa que faço de mim mesma), eu perco a chance de experimentar diversas outras vidas dentro da minha. Quando nosso negócio vai mal ou até quebra, isso não o define por completo. Isso passa. Isso pode passar. Aliás, esse fracasso nos dá um pouco mais de humanidade e força… Um pouco mais de linhas para escrever o que e como quisermos.