Para mim é sempre muito claro – não há como organizarmos história nenhuma se não mantivermos as memórias especiais guardadas, limpas, sem poeira e sujeira alguma. As memórias são o sabor distinto da história – moram na superfície mais profunda ao lado da alma, vizinha da poesia.

Aliás, poesias nascem pertinho de onde moram as memórias, que seja dito. Memórias são lembranças com sentimento… são lembranças nomeadas e organizadas no coração, onde mantemos nosso sentido de vida primordial.

Um jeito pratico de fortalecer memórias é olhar além da camada do fato. Sabe aquela viagem especial? O cheiro do mar no dia de um adeus? As cores dos ladrilhos de uma igreja antiga no caminho? Uma música que tocava bem na hora em que seu coração de partia? Ou bem na hora da paixão? Do amor?

Olhar o mundo além do óbvio é estar atenta às memórias que valem ser guardadas. Dolorosas ou não, elas ficam na camada além da camada.

Agora mesmo, preciso dizer… Estou em uma fase de mudança intensa interna e externa. Enquanto encaixoto uma casa inteira para caber em um quarto, enquanto separo tudo o que me é essencial (e somente isso), deito por alguns segundos na minha cama ao lado do meu filho, que assiste a um filme em silêncio. Minha cama grande posicionada frente à janela… minha cama que me permite deitar-me e olhar o céu ao mesmo tempo… Minha cama que me permite olhar uma árvore que se mexe com o vento…

Nesse momento, nesse exato momento eu sei que uma memória está nascendo. Isso porque, junto da história da mudança, nasce essa árvore que se mexe com o vento em um dia nublado e fresco.

Cada vez que eu me lembrar dessas ultimas caixas, eu me lembrarei da árvore em frente à minha janela do quarto. Cada vez que eu vir uma árvore dançando com o vento, eu me lembrarei das caixas… da casa e do mundo que se movia aqui dentro a cada separação de itens. Percebem onde quero chegar?

A camada da memória é olhar além durante a história. É pausar um pouco o filme para colar sentimento em o que quer que esteja vivendo aqui e agora. É guardar um souvenir daquele dia bem dentro de si mesmo. As coisas são como são, mas são como a gente sente que são ainda mais possivelmente. Histórias pessoais não são apenas fatos – para que elas signifiquem algo, precisamos olhar em volta.

Ao longo dos anos, aliás, eu adquiri um hábito bobo de olhar para cima e enxergar as copas das árvores desenhando o céu durante qualquer passeio. Outras vezes, eu paro o que estou fazendo e escrevo uma palavra / uma palavra apenas que possa sintetizar algum momento importante. Mas, o que é importante?, você por me perguntar…. tudo. Tudo o que nos faz ter aquela vontade de guardar pra sempre ou tudo o que nos muda por dentro, às vezes até mesmo sem escolhermos.

Outro dia deixei meu filho na escola e, ao vê-lo se afastar de mim segurando sua mochilinha, eu me vi paralisada na porta da escola.

Meu filho.

Empurrando seu carrinho de mochila.

De costas.

Ficando cada vez menor.

Eu queria tirar uma foto! Eu queria nunca esquecer daquilo. Fechei meus olhos e inspirei bem profundamente e notei um aroma que nunca havia notado antes… Grata, voltei pra meu carro e fui cuidar da vida com a certeza de que toda vez que sentir o mesmo aroma, lembrarei do meu filho caminhando para a escola.

Onde moram as memórias? No olhar além do óbvio. No exercício de buscar um símbolo para nossas histórias. Uma cápsula condensada que carregue em si a poesia de algum momento especial… com ou sem dor… De que se alimentam? De humanidade.

Humanidade pura e simples.

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Proponho, então, que vocês encontrem os símbolos por aí; eles seguem sempre perto de nós, porém, somente se revelam quando lhes damos esse direito. Observe. Repare. Inspire. Suas histórias – certamente – agradecerão a atenção. E você se preencherá de memórias ricas e repletas de sentido dia após dia, cada vez mais.

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