Quem já mudou de casa sabe que a mudança física é algo longe de ser simples – a complexidade do movimento, aliás, por vezes nem é fácil de ser explicada… A gente precisa mudar, oras, então… Muda. A gente casou, a gente separou, a gente perdeu um emprego ou conseguiu um novo… A vida acontece e a gente acontece com a vida, tudo ao mesmo tempo. Agora. Já. Foi. E foi nesse compasso que me vi há meses planejando uma mudança que precisava acontecer até antes, porém, no meu tempo eu resolvi agir para que ela se desse na minha vida. Uma casa. A minha casa. Precisava ser trocada por outros sonhos. A casa que era um sonho tornou-se um peso e o peso que era medo, tornou-se possibilidade.

Assim, fluidez é estarmos vivos, viu¿ Fica a dica eterna da existência humana.

E, como não sou boba nem nada, eu comecei um movimento interno de desapego que – para mim – sempre começa e termina no papel. Uma carta, pensei, cairia muitíssimo bem. Pois bem. Carta será. E hoje percebo como esse “escrever carta para as coisas que passam por mim” tem um sentido enorme na minha vida – como nomear os eventos me ajuda muito ao produzir, observar e compreender as histórias pessoais ao meu redor. A escrita epistolar, aliás, é muito significativa porque ela é pautada na relação. Existe quem a receba e quem a guarde ou a responda… É a emoção compartilhada. Agora, claramente vocês devem me achar louca em dizer que escrevi uma carta à minha casa e ainda digo que espero resposta.

Não, não espero. Eu escrevi pelo movimento de entregar minhas emoções a algo e, sendo assim, a gente aprende mais sobre nós do que sobre o objeto da carta. O autoconhecimento, portanto, é ingrediente especial das nossas histórias.

O que quero atentar aqui é:

  1. Todo evento que nos ocorre é objeto de escrita, construção de narrativa e, portanto, memória.
  2. Toda memória é objeto de lições – e as lições, já vimos bem, são a cola emocional das histórias que contamos. Elas juntam outros humanos às nossas palavras. Elas mostram aos outros tudo o que desejamos que eles aprendam junto conosco.
  3. Aos pensarmos sobre as relações que temos com o mundo ao nosso redor, pensamos também nas relações que existem dentro de nós.

Eu gosto de pensar que Storytelling Pessoal é um modo de transformar pedra em pérola, ou seja, um modo de olhar algo sem valor – aparente – e ver ali ouro… Tesouro. Um movimento de mudança de casa, para mim, foi ouro! Hora de pensar em histórias, lições, memórias… Meu convite aqui é esse: Você já pensou sobre o mundo que o circunda¿ Já escreveu uma carta para a sua casa e tudo o que ela lhe representa¿ Já escreveu uma carta à casa da sua infância e tudo o que ela já guardou, viu, observou, presenciou¿ Já escreveu uma carta a si mesmo mais velho ou mais jovem¿ Se não… Por que não¿ Talvez seja hora de observar os pontos de contato entre um sentimento e outro. Fazer conexões, compreender porquês e buscar todo o conhecimento construído por experiências pessoais. Porque, afinal, toda essa riqueza interna torna-se material principal das histórias que guardamos, vivemos, ouvimos e compartilhamos.

Renata Ferreira