– Quando é que você vai começar a viver efetivamente o que você prega? – e a pergunta tinha vindo assim, de repente, quando eu menos esperava. Eu tinha acabado de postar um texto no blog, cujo título era: “Ao final da vida, de quais histórias você quer se lembrar?”. E ele tinha lido, claro. Ele sempre lê tudo o que eu escrevo.

Demorei um pouco para me situar no tempo e no espaço. Eu estava no meu home office mal-ajambrado, porque eu passava realmente muito pouco tempo naquele lugar para que ele tivesse de fato a minha cara. Papai me fitando nos olhos como quem não vai arredar pé dali até obter uma resposta.

– Como é que é? – eu respondi, tentando desviar o olhar.

– Li o seu texto.

E então, naquele momento, eu finalmente entendi.

– Sou uma fraude – pensei, mas não disse. Ao invés disso, optei pelo caminho mais fácil.

– Tem muita coisa envolvida, pai.

– A menina do blog diria que isso tudo é desculpa – absorvi as palavras e dei um sorriso tímido, envergonhada. Eu sempre soube o que precisava ser feito.

– Acho que ainda falta coragem…

– Mentira! – ele quase gritou. E saiu da mesma forma que tinha entrado. Não era preciso dizer mais nada.

Desde que eu tinha lançado o meu primeiro romance, em outubro de 2013, a minha relação com a coragem e com o medo já não era mais a mesma. Após cinco anos de um medo paralisante e cruel, eu finalmente tinha escolhido ser eu mesma, independentemente do que os outros fossem pensar ou falar a meu respeito. Da publicação de um livro que, durante aqueles anos todos tinha permanecido escondido nas pastas amarelas do meu computador, oculto dos outros de mim mesma, à criação do Cookies and Words, muita coisa tinha mudado dentro de mim. Eu já não era mais aquela menina que vivia tentando agradar a quem quer que fosse para ser aceita e amada, que já não sabia mais quem era e aonde queria chegar, que já não acreditava em si mesma e na importância da sua mensagem. Pelo contrário. Ao dar os primeiros passos em direção a uma vida fora do casulo, entendi que coragem nunca significou ausência de medo. E que eu era muito mais capaz do que imaginava.

Naquele tempo, mais do que ser lida, eu comecei a ser seguida por milhares de pessoas que, de alguma forma, se identificavam com o meu trabalho, com a minha mensagem, com a pessoa que eu havia me transformado. De forma despretensiosa, quase sem perceber, eu estava fazendo a diferença na vida de gente que eu nem conhecia, simplesmente por ter decidido ser eu mesma e compartilhar com o mundo o que eu pensava e queria dizer. Eu não ganhava dinheiro com o Cookies and Words. Nem um centavo. Mas aquele trabalho era mais valioso do que qualquer coisa que pudesse existir. Porque tinha propósito ali. E verdade. Naquele final de 2013, eu havia descoberto, finalmente, quem eu realmente era.

Em 2014, vivi cinco anos em um. A minha participação, em janeiro, em um programa de coaching de vida online foi fundamental para que eu descobrisse o que, no fundo, eu sempre soube: o mundo inteiro já existe dentro de cada um de nós. E o impossível é só uma questão de ponto de vista. Talvez muita gente não saiba, mas foi a partir desse programa de coaching que aprendi, também, as minhas primeiras lições sobre o empreendedorismo digital e que comecei a me aproximar de empreendedores que me abriram portas e janelas, mostrando-me o quanto eu era capaz de conseguir tudo aquilo o que eu quisesse se, para tanto, eu agisse de acordo com a minha verdade. Além de guias, muitas pessoas no mundo digital se transformaram em verdadeiras pontes na minha vida. E foi através dessa gente que minha rede de relacionamentos se expandiu: de jornalista frustrada, meu mundo agora passava a ser povoado também por coaches, escritores, criativos e amantes da vida, que haviam encontrado no trabalho que amam o propósito e o sentido de tudo. A Paula Quintão (e a sua Equipar para Vencer) era uma dessas pessoas.

Naquele começo de ano, eu ainda não sabia, mas estava construindo um novo capítulo para a minha história; algo completamente diferente de tudo o que eu já havia vivido. Além de triplicar o número de seguidores do meu blog, escrever e publicar outro livro, descobrir os benefícios da meditação e do pensamento positivo e me lançar de vez no mundo digital, eu havia descoberto qual era a minha missão nessa vida: ajudar pessoas que se sentiam “perdidas” e que não sabiam mais quais eram os seus talentos ou o que fazer com eles a se reconectarem com a sua própria essência e fazerem escolhas mais alinhadas com a sua verdade, para que elas pudessem criar um estilo de vida (e de trabalho!) que as fizesse ter vontade de levantar da cama todos os dias, com um sorriso no rosto, e viver.

Tudo estava fluindo muito bem. Dezenas de novos seguidores chegavam ao Cookies and Words todos os dias. Sites e blogs conhecidos e bem-sucedidos começavam a publicar os meus textos, numa demonstração clara de que eu estava no caminho certo. Pouco a pouco, convites para palestrar em congressos online foram surgindo também, ao lado de novos cursos que eu fazia e das dezenas de livros sobre mudança de vida, desenvolvimento pessoal, coaching e empreendedorismo digital que eu devorava toda semana. Da formação em coaching na mais renomada instituição do país aos primeiros atendimentos presencias e via Skype foi um pulo. Em agosto de 2014, eu tinha descoberto uma nova profissão, aquela que fazia os meus olhos brilharem e o meu coração bater mais animado; o trabalho que me colocava em fluxo, juntamente com os textos que eu escrevia e com as dezenas de mensagens que eu respondia todos os dias, de gente que me fazia, literalmente, chorar de emoção, tamanha a confiança que demonstrava em mim e no meu trabalho.

Tudo estava fluindo muito bem, sim. O blog havia se transformado em site, e eu tinha acabado de voltar de uma das viagens mais incríveis da minha vida. A experiência na Califórnia, quando participei da High Performance Academy, treinamento de alta performance criado pelo maior nome do coaching de alta performance do mundo, o Brendon Burchard, marcaria para sempre a minha história, por vários motivos. O primeiro deles foi o que me fez viajar: ter ganhado um concurso de votação popular promovido pela Paula Abreu, após uma disputa acirrada que se estenderia por semanas e que me faria aprender a maior e mais importante lição de toda a minha trajetória: seja lá qual for o seu sonho ou objetivo na vida, para que ele se torne real, você vai precisar encontrar a razão maior que te fará seguir em frente mesmo quando todos os outros desistirem. Dentre todos os outros motivos que transformaram aquela viagem no meu divisor de águas, estavam, também, a incrível oportunidade que tive de desafiar os meus medos mais assustadores (como o de ter que conversar em inglês durante as várias atividades em grupo que teríamos que participar) e a chance de conhecer pessoalmente, conversar e interagir com pessoas que já tinham chegado lá. Durante aqueles quatro dias de treinamento intenso, colecionei experiências e aprendizados que nenhum livro no mundo tinha me ensinado com tanta propriedade. E fiz amigos. Amigos que levarei para o resto da vida.

De Santa Clara para Los Angeles, uma oportunidade do Universo apareceu no meu caminho. Eu havia conseguido adiantar o voo e, por golpe do destino, voaria ao lado do Victor Damásio, o grande nome do jogo quando o assunto é marketing digital. De tudo o que conversamos durante aquele tempo nos ares, uma coisa me marcou. E talvez o Victor nem saiba… Em determinado momento da conversa, ele me perguntou:

– E aí, qual é a sua história?

E então eu contei de mim. Do meu começo. Do Cookies and Words. E do sonho que eu tinha de fazer a diferença nesse mundo.

– Biscoitos e palavras? – ele falou, achando graça do nome do blog (Biscoito é um apelido carinhoso que eu ganhei do meu namorado e maior incentivador que eu já tive quando pensei em criar o blog e me aventurar no mundo digital. Por várias vezes eu já pensei em trocar o nome do blog, para algo mais direto e fácil de ser encontrado, mas uma pesquisa com os seguidores me mostrou uma relação afetiva com o nome. E uma identificação e reconhecimento que eu não poderia ignorar.). Mais de sete mil seguidores de um blog que chama biscoitos e palavras. Você deveria levar isso em consideração.

– Eu sei que é só o começo – falei, ainda um pouco intimidada por estar conversando com o Victor sobre tudo aquilo.

– Arrisque mais, “Bixcoito” – ele sorriu, mas eu sabia que, apesar da piada, falava sério.

– É aquela questão da segurança…

– Ninguém está te pedindo para dar um salto no escuro.

– Eu já me planejei, mas fico pensando que ainda não é suficiente…

– Se você ficar esperando o momento perfeito…

Ok. Eu já sabia. Eu sempre soube.

– Eu quero fazer a diferença no mundo, Victor.

– Então vai lá. E faz.

Depois daquela viagem, eu finalmente havia entendido o que tanto me incomodava, apesar de tudo o que eu já havia conquistado. Eu não estava sendo 100% coerente com aquilo que eu pregava, e era justamente esse sentimento de desconexão entre mensagem e mensageiro o que me angustiava e me impedia de voar mais alto e mais além. Eu ainda estava presa ao mundo corporativo e à pseudo ideia de segurança e estabilidade que ele me trazia. Eu falava de coragem e da necessidade de arriscar e viver uma vida plena, de ser uma verdadeira empreendedora, mas eu mesma estava vivendo pela metade. Lado a lado com o trabalho que eu amava, estava também o fantasma da segunda-feira. Eu me sentia uma fraude. E aquilo doía demais.

Em novembro de 2014, um mês após retornar da Califórnia, fiz o meu primeiro dinheiro como afiliada (eu já tinha vivido a experiência de gerar dinheiro online como infoprodutora, com a venda do meu primeiro e-book, mas nada tão expressivo como naquele momento). Pela primeira vez, eu tinha percebido a possibilidade real de unir satisfação pessoal, emocional e financeira em um trabalho que entregasse e gerasse valor pela internet (e a Paulinha Quintão foi quem me despertou para essa incrível possibilidade!). Naquele mesmo mês, participei de outro evento que, como a High Performance Academy, marcaria de forma absoluta a minha vida, a Life Style Academy, criada pela Paula Abreu para ser um dos maiores encontros de coaching e estilo de vida do país.

Lembro-me de que, no segundo dia do evento, subiu ao palco uma das pessoas que mais me faria entender, de uma vez por todas, o meu destino em ser águia, não galinha. Geronimo Theml encerrou a sua palestra na Life Style Academy com um desafio: vá lá e faça alguma coisa por você e pela sua vida. Vá lá e faça valer a pena.

Naquela época eu fazia parte do Profissão Coach, programa criado pelo Geronimo, e já sabia bem como a banda tocava por lá. “Um dia, todos nós vamos viver só de histórias. Então, a grande questão é: de que histórias você quer viver? Sobre o que você quer ter orgulho de falar para os seus filhos, para os seus netos, para quem quer que seja?”.

Legado. E, finalmente, eu havia entendido a minha razão maior, aquele motivo que me faria seguir em frente mesmo quando todos os outros pensassem em desistir. Eu não queria apenas passar pela vida. Eu queria viver. E viver, para mim, significava aproveitar cada segundo como se fosse o último, com presença efetiva no mundo de quem eu amo, com verdade, honestidade e respeito a mim mesma e aos meus valores mais preciosos e, sobretudo, com o propósito maior de fazer a diferença na vida de alguém. Eu queria, efetivamente, responder de forma positiva àquelas perguntas que mudaram a vida do Brendon Burchard e que, de alguma forma, mudaram a minha também: “Será que vivi? Será que amei? Será que fiz a diferença no mundo de alguém?”.

E então eu me vi ali, no discurso do Geronimo, reconhecendo cada palavra como se fosse minha. “Ser águia dói”, ele disse. E eu sabia bem. “Por muitas vezes eu chorei de medo, sentado no chão da cozinha”. E eu já havia chorado centenas de vezes no chão do banheiro. “Mas eu sabia que eu precisava fazer alguma coisa a respeito, simplesmente porque, seja lá qual for o medo que você tenha, nada pode ser maior do que a sua vontade de fazer valer a pena”. Nada. “Eu queria que os meus filhos tivessem orgulho de mim”.

Legado. Ao final da vida, do que você vai ter orgulho de ter conquistado? De quais histórias você vai querer se lembrar?

No dia 4 de dezembro de 2014, pedi demissão da empresa em que trabalhava como jornalista. Eu não odiava o que eu fazia, mas o meu coração já não estava ali. Dentre todas as coisas que eu tinha aprendido naquele ano, duas delas me marcaram mais: não há caminho que valha a pena ser seguido se nele não está o seu coração. E o verdadeiro empreendedor, ah, o verdadeiro empreendedor é aquele que arrisca. Apesar de todos os pesares.

Naquele mesmo dia, recebi uma mensagem do Victor Damásio, parabenizando a minha atitude: “Parabéns por hoje, ‘Bixcoito’. Torcendo por você”.

Dias depois, qual foi a minha surpresa quando, ao verificar as mensagens no meu celular, vejo um inbox do Geronimo Theml: “Parabéns por estar construindo suas histórias. Parabéns por ter saído do mundo corporativo”.

No dia 31 de dezembro de 2014, dei adeus ao mundo corporativo para viver a vida plena que sempre defendi, postando nas redes sociais a mensagem mais verdadeira que eu já havia escrito em toda a minha vida.

“Hoje, não por acaso, mais um ciclo se encerra. Após quase quatro anos, me despeço do mundo corporativo com o sentimento de gratidão e dever cumprido. Do pedido de demissão à possibilidade real de realizar o sonho de trabalhar em home office e viver fazendo o que amo, fica uma importante lição: nenhum começo é pequeno demais para quem arregaça as mangas e vai à luta. E, sobretudo, acredita em si mesmo e na importância da sua mensagem.

Até pouco tempo atrás, eu não imaginava que viver integralmente de coaching seria uma realidade pra mim. Nem que o Cookies and Words, projeto que começou de maneira tão despretensiosa, impactaria tantas vidas e faria a diferença no mundo de tanta gente. Eu não imaginava, mas eu também nunca duvidei.

Seja lá qual for o seu sonho ou objetivo na vida, tenha em mente uma coisa importante: para que ele se torne real, você vai precisar encontrar a razão maior que te fará seguir em frente mesmo quando todos os outros desistirem.

Se vai dar medo? Claro que vai! Mas medo nunca significou ausência de coragem. Planeje, trace metas, cumpra-as com afinco, determinação e consistência. Recalcule a rota, se preciso for, mas, nem por um momento, deixe o medo te dominar ou ser maior que a sua vontade de fazer as coisas darem certo. Aja apesar de, porque é quando a gente se coloca em movimento que tudo começa a acontecer. É na sua ação consistente que reside grande parte da sua força.

Muitos vão te chamar de louco. Agradeça-os. Não há elogio melhor. Num mundo em que a aceitação, o comodismo e a insatisfação com a própria vida se tornaram regra, loucura pra mim é valor dos mais preciosos. O que me assusta é a normalidade.

– E se não der certo? – me perguntam.
– Vai dar certo.
– E se não der certo? – querem saber.
– Vai dar certo.
– Mas e se não der certo? – insistem, claro.
– Pelo menos eu tentei.

Como bem disse Walt Disney: ‘Você erra 100% dos chutes que você não dá’”.

Papai me espera na porta da empresa. Era o último dia.

– Agora acabou, pai.

– Agora é que começou.

Dou uma última olhada no meu crachá, símbolo do que havia se transformado em uma algema pra mim.

– É engraçado como a liberdade às vezes assusta – pensei.

Vejo que papai me espia do retrovisor. Dou um sorriso sincero.

– Coach, escritora e empreendedora digital, hein? – ele diz, dando partida no carro.

– E esse é só o começo – eu respondo, enquanto olho pela janela e vejo, lá em cima, um pássaro voar.

– Quem disse que o céu é o limite, não é mesmo?

– Agora eu começo a acreditar que o impossível é só uma questão de ponto de vista mesmo.

– Você já acreditava nisso, só não tinha se dado conta.

Verdade. No fundo, lá no fundo, eu sempre soube disso.