Todo mundo conhece o filme do menininho loiro americano que é esquecido em casa durante o Natal enquanto a família parte para uma viagem meio maluca sem ele, certo? Aliás, esse filme foi ícone dos anos 80 e foi responsável por instigar o sonho em grande parte das crianças da época (inclusive eu) de ser esquecida em casa durante um feriado inteirinho… Puxa vida, como eu queria lutar contra ladrões, criar estratégias sensacionais de combate ao crime usando todo o material misterioso da lavanderia e ainda me divertir pelas ruas sem qualquer supervisão. Eu seria realmente feliz. No final, minha família voltaria toda saudosa de mim, me daria muitos abraços e qualquer problema de comunicação que tivéssemos seria resolvido nessa distância – nossos laços se tornariam mais fortes do que nunca. Essa foi a mágica do filme, aliás. O pequeno não só sobreviveu aos ladrões mais atrapalhados do mundo, como também reintegrou a família com a sua ausência. Tem coisa mais linda?

A história pessoal tem justamente essa magia: às vezes, a ausência de elementos nos conecta também ao outro de uma maneira poderosa. É preciso escolher como e onde estar presente para não exagerar.

Primeiramente, calma. Respira. Não estou dizendo que você está fazendo tudo errado ao compartilhar suas histórias junto com seu negócio. Por favor, FAÇA ISSO! Mas, em um webinário que dei essa semana surgiu uma pergunta sobre como saber se a gente não está compartilhando demais e, assim, cansar a nossa audiência. Não sou dona da verdade, mas, para mim, esse movimento tem a ver com o fluxo contínuo de dar e receber e voltar a dar e voltar a receber… O compartilhamento de histórias pessoais atreladas ao nosso negócio deve ter uma linha central que eu chamo de “retro gosto emocional”. O retro gosto é aquele gosto que fica no fundo da língua por mais tempo do que o gosto central de um alimento. Não é o primeiro que a gente sente, mas é o que fica por mais tempo depois que você já comeu aquilo ali, sabe? Assim como alimentos, histórias entram em nós de um jeito imediato, mas deixam também algo para trás quando partem. Nós, humanos espertos que somos, elaboramos essas histórias (ou as digerimos) e mantemos o que nos serve. O que não nos serve? A gente esquece. Simples assim. Precisa ser assim, afinal, temos que priorizar o que nosso cérebro julga útil para outro momento futuro. Histórias provocam nossas emoções imediatamente, mas as lições e ideias que chegam atreladas a elas são as que ficam como retro gosto. As emoções são, então, a força primordial e motriz de tudo o mais que permanece em nós quando termina uma história. Além de emoção fica o que poderemos usar dali em diante.

Compartilhar “demais” tem a ver com deixar de trabalhar essa história para que ela deixe cada vez mais algo permanente nos outros. Doar. Entregar. Preocupar-se em preparar essa entrega de modo que signifique mais para o outro do que a história por si só… De modo que consigamos expandir suas lições para mais pessoas possíveis. De modo que consigamos prescindir da própria história que mora em nós.

Um contador de histórias que encanta o faz porque trabalha sua história de modo que ela signifique mais do que uma história bonita. Inspirar prevê que criemos sentidos amplos que conectem dores não só nossas, mas dores da humanidade. Percebe a diferença?

Quando queremos contar nossas histórias, claramente fazemos com a ideia de nos organizar internamente e isso faz mesmo parte do nosso processo íntimo. É para ser assim! E esse compartilhamento inicial inspira alguns ao seu redor. Mentira, inspira muitos! É um excelente primeiro passo para engajar quem quer que esteja ao seu redor… Entretanto, como storytellers, não é ideal que fiemos nossa narrativa única e exclusivamente no compartilhamento de histórias lindas e lineares simplesmente por serem lindas e lineares. Essa sensação de que “estou cansando minha audiência” pode ter sua raiz aí; nessa tendência pode aparecer de gostarmos tanto de falar de nós mesmos que deixamos o outro de lado.

O que o outro pode aprender com o que eu vivi? O que posso deixar de presente hoje com essa história? O que quero que o outro sinta a partir do que ouvir de mim? O que desejo doar de mim hoje? O que eu aprendi com essa história que pode servir para ainda mais pessoas?

Essas perguntas, quando respondidas na verve central da história (na atmosfera, no não dito, no sentido de fato) podem produzir qualquer coisa, menos histórias que cansam. Porque cansar a audiência é consideravelmente difícil quando a gente dá algo que eles vão carregar por muito e muito tempo.

Lá no fundinho.

Lá no retro gosto da vida.

Porém, não se engane. Essas perguntas não servem para mecanizar sua história e nem criar um mecanismo desprovido de emoção na hora de construir sua narrativa. Serve apenas para que você se pergunte se as histórias que produz carregam em si um presente singular ali no meio. Um pacotinho especial que sua audiência poderá abrir e guardar na carteira… Se a resposta for sim, dificilmente alguém será capaz de cansar de você.

Renata Ferreira.